O medo pode nos fazer imunes à razão


Haverá um momento que deveremos sair da cautela extrema que nos tomou. Confesso que entendi justificada a cautela extrema quando vi que a COVID-19 tinha 10% de letalidade entre os italianos, em março de 2020. As proporções não eram favoráveis: sem um meio de proteção eficiente (eu nunca acreditei na hipótese de que o calor mataria o vírus, muito fantasiosa e desejável para ser considerada plausível), um vírus que não pudesse ser parado (digamos que contaminasse 100% da humanidade) levaria 10% das pessoas à morte. Isso seria 1 para cada 10 pessoas que conhecemos.

Com o tempo, percebemos algumas coisas. Uma delas é que são os idosos mais suscetíveis à letalidade. E depois percebemos que houve um expansão atípica na Itália de 03/2020: na verdade a letalidade geral da população não era de 10% ou 11%, mas dificilmente maior do que 2,5%. Nosso nível de atenção aos enfermos melhorou, buscamos alternativas de prevenção do contágio.

De lá para cá, ao menos a letalidade parece ter estabilizado. Uma nova onda acelera e dissemina o contágio, ao mesmo tempo em que as primeiras vacinas passam a ser aplicadas. O medo do momento é o de novas cepas: afinal o que entendemos das mutações do vírus e da sua própria capacidade de mutar? Testes diligentes já deveriam estar sendo feitos para mapear as cepas e sua letalidade, embora, passada mais de um ano de pandemia, ainda se tenha dado pouca divulgação às eventuais pesquisas que poderiam ter avançado neste sentido. Eu não soube de nenhuma.

Tomado de certa confiança, que sei que será julgada por alguns como inadequada, me posiciono no sentido de rever o isolamento extremo a que temos nos submetido. Como disse certa vez Christopher Nolan, haverá o momento em que a humanidade pense como humanidade, e não mais apenas como o indivíduo que cada um de nós pensa que é. Acredito que o COVID19 e o subsequente lockdown foram bons testes a este paradigma. Eu me submeti ao isolamento mesmo quando tinha pouca crença que esta fosse a correta medida (intensa pesquisa e fechamento imediato de aeroportos teria sido muito mais eficiente). Acredito que seja o momento de pensarmos o que significou um ano de isolamento, qual foi o impacto psicológico de tanto tempo de privação, o que significará para nossas crianças passar um ano ou mais com medo dentro de suas casas, sem ensino adequado, lavando a mão mais que o usual e com a indispensabilidade de máscaras. O peso da falta de convívio, a ansiedade crescente e generalizada, a desmotivação para o trabalho ou para o estudo.


Há coisas que não sabemos, mas há coisas que temos que decidir, ainda que infelizmente saibamos pouco. Há muito em jogo. Não fomos programados para viver na sombra do medo: podemos resistir e privilegiar a sobrevivência, mas sabemos no íntimo que nunca acharemos sobreviver suficiente, quereremos a vida plena com a abundância e a coragem e a superação de que ela precisa.

Aos que sofreram perdas devido a esta calamidade, meus profundos pêsames. Não se trata de achar que o desafio está superado, acredito. Mas para mim está na hora de pensarmos que a luz no fim do túnel de fato pode ser muito mais ampla e forte do que até agora consideramos.


Abaixo uma pesquisa de opinião sobre a percepção sobre a saúde mental em tempos de pandemia:

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  Por Trás do Franco Atirador

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