Covid. Um esboço de teoria motivacional para o negacionismo.

Adentramos abril após um março muito sombrio. As armas para combater a covid, as vacinas, já existem há meses, mas o governo federal foi negligente ao não financiar sua pesquisa, ao não produzir em território nacional, nem ao menos em adquirir de outros países quando recebeu as ofertas. Estes meses de atraso, de negligência, foram cruciais em causar milhares de mortes e adoecimentos muito além do previsto, de um modo completamente desnecessário. A luz que se avizinhava para o mundo inteiro foi bloqueada apenas no Brasil, porque nosso presidente produziu fumaças cinzentas e lúgubres eivadas de ranço e negacionismo.

O que era evitável se tornou inevitável, assim como nos contos de fada a cigarra que canta e berra, despreocupada tem de pedir asilo à previdente formiga. O coelho, por excesso de confiança, orgulho prepotente, perde a corrida para a perseverante tartaruga. Esta não se move com rapidez, mas é persistente. Assistir nosso futuro ex-presidente acordar assustado enquanto vê estar por último nesta corrida pela saúde, é deprimente, indesculpável.

Após as vacinas aplicadas, teremos uma crise de valores para lidar, uma crise que já perdura deste o início da década passada, e que ainda não endereçamos, coletivamente. A polarização política mudou de lado, mas as propostas continuam sendo largamente insuficientes para dar conta de nossas dificuldades e atrasos, inclusive a mesma ameaça fiscal que custou o cargo de Dilma.

Tenho dito e visto que as nossas dificuldades são esta crise de valores, valores íntimos e supremos - é algo mais do que a saúde, é algo mais do que a economia, também é da esfera moral e intelectual. Não precisamos concordar em todos os valores, ninguém efetivamente concorda. Mas precisamos concordar em alguns e especialmente ser eficientes ao efetivá-los.

Nossas crises - moral, sanitária, econômica, intelectual - tem, todas, solução. E basicamente só dependem de 3 pilares: Educação e racionalidade (conhecimento), intenção democrática e diplomacia (temperança coletiva) e ação condizente (diligência). Precisamos de novos líderes, pois precisamos nos certificar de que eles apresentem estas virtudes como hábitos.

É difícil falar o óbvio tantas vezes, é difícil crer que não entendemos sequer o óbvio. Não sabemos de epistemologia, vivemos de boatos, não sabemos confiar numa fonte, nem propriamente quando desconfiar. Estamos a mercê, nus precisamente naquilo que seria o mais caro ao ser humano: a sua capacidade de pensar.

Durante a pandemia, aprendi muito sobre o comportamento humano. Entendi que todos queríamos nos sentir protegidos, mas adotamos formas distintas de fazê-lo. Enquanto uns optaram pela reclusão social, o uso de máscaras e a limpeza com álcool, isto é, a via do comportamento, outros optaram por combater o mal na via da crença e da dúvida, isto é, cognitivamente. Por isso lançaram mão da confiança na cloroquina e na ivermectina, por isso duvidaram das medidas conservadoras como a máscara ou o isolamento social, por isso duvidaram ainda de autópsias que sequer refizeram, isto é, questionaram um dado empírico sem uma evidência concreta que o indicasse como falso.

Se o covid não existisse, se não fosse tão perigoso, se houvesse remédio de imunização (kit covid), tudo isso levaria o crédulo a acreditar que estava seguro e menos preocupado. O problema foi que esse jogo cognitivo duvidou de fatos e confiou em boatos. O jogo da negação, cego, não ajudou o jogador. Evidentemente não se trata de ter medo, mas uma dose de cautela e previdência não é salutar?

Todos sabemos que comportamentos são mais efetivos do que crenças ou dúvidas, mas aí jaz a diferença de um grupo (os previdentes) e de outro (os desprezadores, ou os confiantes exacerbados). As questões no brasil se arrastam porque não adianta desmistificar uma coisa, logo aparece outro mito a nos iludir. Não aprendemos a pensar, e seremos enganados, nos enganaremos sempre, enquanto não aprendermos. Isso significará nossa morte de um jeito ou de outro. A natureza é seletiva.

-----

Adendo sobre medicamentos que tem sido recomendados por profissionais ou alardeados pela mídia e leigos:

Cloroquina, efeito positivo zero, indutora da mortalidade: "Dos mais de 96 mil pacientes, com idade média 53,8 anos, 14.888 pacientes estavam nos grupos de tratamento e 81.144 pacientes estavam no grupo controle. O resultado apresentado é que todos os grupos que receberam os medicamentos tiveram um risco maior de mortalidade quando comparados ao grupo controle. Além disso, o risco de arritmias ventriculares também foi maior nesses pacientes." De <https://pebmed.com.br/oms-suspende-o-uso-da-cloroquina-e-hidroxicloroquina-em-testes-contra-a-covid-19/>

Ivermectina, receitada mediante uma certa 'esperança homeopática': "O que há de mais confiável no momento [sobre Ivermectina] é uma pesquisa publicada por cientistas australianos no periódico Antiviral Research. Ela indica que o composto consegue inibir a replicação do novo coronavírus in vitro — isto é, em células isoladas no laboratório, não no corpo.

“Só que a dose eficaz nessa investigação ultrapassa entre 50 e 100 vezes o limite considerado seguro para o ser humano”, comenta Leonardo Pereira, farmacêutico e professor da Universidade de São Paulo... " Citação de : https://saude.abril.com.br/medicina/ivermectina-o-que-sabemos-sobre-seu-uso-contra-o-coronavirus/

Azitromicina, sem relevância estatística em 400 casos analisados: https://web.archive.org/web/20201129102319/https://veja.abril.com.br/saude/covid-19-azitromicina-nao-e-eficaz-em-doentes-graves-diz-novo-estudo/'

Colchicina: apesar deste artigo destacar que seu uso mudou a proporção de necessidade de internamento de 5,8% para 4,7%. https://pebmed.com.br/colchicina-em-pacientes-com-covid-19-e-eficaz/

a própria bula alerta que é tóxico, e que não há uma dosagem segura para definir sua toxicidade.... que pode dar diarreia e levar a letalidade. menciona que esta dosagem também é complicada de inferir em pacientes 'idosos' (embora não especifique a idade na qual alguém se torna idoso): 'A colchicina apresenta doses não tóxicas muito próximas a doses tóxicas e a doses letais, diante disso não recomendamos a ingestão de doses acima de 7mg. A sintomatologia da superdose inicia-se de 2 a 5 horas após a dose tóxica ter sido ingerida e inclui sensação de queimação na boca e garganta, febre, vômitos, diarreia, dor abdominal e insuficiência renal'

Referencia aqui: https://img.drogasil.com.br/raiadrogasil_bula/ColchicinaGeolab.pdf

Procurar por Tags
Busca por palavras
Siga O Franco Atirador
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Instagram Social Icon
  • Blogger Social Icon
  • Tumblr Social Icon
  Por Trás do Franco Atirador

© 2016 por O Franco Atirador

    Gostou da leitura? Doe agora e me ajude a proporcionar notícias e análises aos meus leitores