Saúde ou Bem-Estar? O caso COVID como um dilema ético no campo da saúde.

À primeira vista, poderia parecer que quem defende a saúde e quem defende o bem-estar levantem a mesma bandeira. Não é bem assim.

Às vezes vem a mim um paciente que se obriga a algo da saúde como uma dieta ou um exercício físico por uma certa obrigação moral, um compromisso. E aí temos um caso exemplar onde a busca da saúde não é um encontro consigo, mas uma obrigação externa, um imperativo social, talvez algo que tem a desculpa de estar a serviço da saúde, mas estando a serviço da beleza e da autoestima, talvez esteja a serviço da vaidade.

O outro caso é o de pessoas que são tão preocupadas com a saúde, que a preocupação fica na verdade assombrosa: ela está mais próxima de uma neurose autopunitiva e autocomiserativa do que efetivamente com um cuidado de si. Uma obsessão que causa mais transtorno emocional do que proteção em seu excesso de preocupação.

Este ano tivemos um caso onde a quarentena se impôs como um pouco de um e um pouco de outro. O isolamento social se impôs como uma demanda social, de cima para baixo: a recomendação governamental não diferenciou capitais de cidades minúsculas, nem a diferença da demanda temporal de quando o Brasil não tinha nenhum caso até agora, quando apresentou centenas de milhares; consternadamente pediu que dezenas de milhões de pessoas do interior ficassem em casa quando poderia simplesmente ter suspendido os vôos que em nossa terra chegassem (o que teria sido muito mais efetivo). A decisão uniforme não perguntou quem é você, se você talvez seja imune, se toma medidas preventivas, se teve um risco real de ter sido infectado, todos fomos obrigados a nos isolar. Há quem deixou de praticar atividades físicas por acreditar que não deveria sair de casa sob hipótese nenhuma, por exemplo.

Mais importante que isso, o medo da contaminação gerou uma preocupação obsessiva e ansiosa com estar a salvo do vírus... Medidas até mesmo supersticiosas passaram a ser algo indispensável para a mente fragilizada, suscetível, aterrorizada com a ideia de um vírus altamente contagioso e mortal, para o qual não há uma vacina. Soube de muitas pessoas cujas mãos ficaram queimadas pelo uso excessivo de álcool, por exemplo. Houve quem adotasse medidas de eficácia duvidosa e alto dano. O caso mais emblemático foi a ingestão oral de álcool em gel e desinfetante que alguns residentes dos EUA fizeram.

Evidentemente não escrevo como um especialista de COVID (afinal, quem pode assim se declarar?), mas como alguém que escreve sobre os efeitos psicológicos, emocionais e atitudinais dos jeitos possíveis como nos relacionamos com o que nos afeta e constitui. Tampouco quero minimizar o impacto de uma pandemia que causou milhares de mortes, algumas próximas, e sempre custosas emocionalmente. Mas é uma ponderação que faço como um profissional da saúde. Acredito que o dilema não precisa ser uma escolha OU-OU: uma alternativa forçada. Afinal não podemos cultivar a saúde com o bem-estar? Nos proteger mas cientes de nossos limites e necessidades pessoais, sociais, laborais e emocionais?

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  Por Trás do Franco Atirador

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