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Olivetto e a incompetência ou se vai criar exceções, nem crie a regra

                João Renha nos relata minúcias de um dos mais famosos publicitários brasileiros. Em uma delas, atribui à Washington Olivetto: “levar trabalho para casa é falta de competência”. Com astúcia, retoma em entrevista quatro ou cinco casos em que o próprio Olivetto trouxe o trabalho de casa.

                Conta-nos Renha que Olivetto, enquanto confrontado, reage com impassividade: apenas escuta. Depois argumenta: a regra permanece, a despeito das exceções. O argumento não é criativo, embora tenha suas aplicações. Algumas delas são genuínas e verdadeiras; algumas não.

                Em sua pior versão, dizem os retóricos: “esta é a exceção que confirma a regra”, precisamente na lógica de que toda regra tem sua exceção. Claro: se toda a regra tem sua exceção, uma regra não existe sem exceção. Logo, todo enunciado, para ser regra, precisa de uma exceção.

                Em sua pior versão, é evidentemente falaciosa a ideia, e sequer carece de refutação. Ao que interessa, portanto, voltemos ao caso. Confrontado com tantas evidências, a que Olivetto poderia recorrer? Trazer à tona uma dezena de exemplos que novamente virassem o jogo? Ou admitir-se como incompetente?

                Exibir-se tanto deselegante seria. Autodesmerecer-se realmente poucas vezes é a melhor solução. O argumento bem encaixa, o que está falho é a tese inicial. A ideia de que levar trabalho para casa é falta de competência desdobra-se do cabedal ideológico contemporâneo que separa o profissional do pessoal. As valorações em torno do bom profissional e da boa vida excluem-se mutuamente: o bom profissional deixa seus problemas pessoais em casa; a boa vida é aquela que dispensa os compromissos do trabalho.

                O que funciona e permanece a nível ideológico, no entanto, muitas vezes não resiste às confrotações empíricas. Podemos definitivamente tomar como processos independentes aquilo que somos e aquilo que fazemos? O profissional que somos independe dos tipos de fins de semana que desfrutamos? Trabalhamos igualmente desconsiderando relações de amizade e familiares que possuímos? O que fazemos no tempo livre em nada altera o que produzimos em tempo de serviço? E de outro modo: o que fazemos em horário de serviço não altera o que fazemos em horário livre? Não modifica nossas relações familiares e sociais? O que fazemos enquanto trabalho não nos torna uma pessoa diferente?

                Lugares-comuns nos estabelecem padrões de verdade. E portanto só deveríamos utilizá-los quando são de fato verdadeiros.

 

 

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